Banco da Amazônia tenta recuperar quase R$ 40 milhões investidos em títulos sem garantia do Banco Master. Operação expõe questionamentos sobre critérios de risco adotados por uma instituição pública federal.
O colapso do Banco Master continua produzindo efeitos que vão muito além do mercado financeiro privado. Agora, quem aparece oficialmente na lista de credores da instituição liquidada pelo Banco Central é o Banco da Amazônia (Basa), que busca recuperar cerca de R$ 39 milhões aplicados em títulos que hoje carregam elevado grau de incerteza quanto ao ressarcimento.
A situação chama atenção não apenas pelo valor envolvido, mas também por uma pergunta inevitável: como uma instituição pública federal acabou expondo recursos milionários a uma operação sem garantia junto a um banco que possuía classificação de risco inferior ao padrão predominante de sua própria carteira de investimentos?
O episódio ganhou novo capítulo na última sexta-feira (5), quando venceu uma das operações contratadas pelo Banco da Amazônia junto ao Banco Master.
Como já era esperado desde a decretação da liquidação da instituição financeira pelo Banco Central, não houve pagamento do título.
Segundo informações divulgadas pelo próprio Basa, os investimentos ocorreram entre 2023 e 2024 por meio da aquisição de duas letras financeiras: uma de R$ 25 milhões e outra de R$ 14 milhões.
Em troca, o banco receberia remuneração equivalente a 122% do CDI, percentual considerado superior ao praticado em grande parte das operações semelhantes disponíveis no mercado naquele período.
É justamente neste ponto que a discussão começa a ganhar relevância.
Dados divulgados pelo próprio Banco da Amazônia apontam que aproximadamente 94% da carteira de títulos privados da instituição está concentrada em bancos classificados entre os níveis de risco “AAA” e “A”, considerados os mais seguros do mercado financeiro.
O Banco Master, entretanto, possuía classificação “BBB” quando as aplicações foram realizadas.
Embora ainda estivesse dentro da faixa considerada grau de investimento, a diferença em relação ao padrão adotado pelo próprio Basa chama atenção.
A movimentação levanta dúvidas sobre os critérios utilizados para a aprovação da operação e sobre a avaliação de risco realizada no momento da aplicação dos recursos.
A situação se torna ainda mais delicada porque os títulos adquiridos pelo Banco da Amazônia não possuíam garantias específicas.
Na prática, isso coloca o banco na condição de credor quirografário no processo de liquidação.
Traduzindo para uma linguagem mais simples: o Basa entra na fila dos credores sem preferência especial para receber.
Antes dele, normalmente são pagos créditos trabalhistas, tributários e operações que possuem garantias reais.
Nos bastidores do mercado financeiro, essa condição costuma reduzir significativamente as perspectivas de recuperação integral dos recursos investidos.
O Banco da Amazônia não é o único afetado.
Levantamentos apontam que diversos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) espalhados pelo país também aplicaram recursos em letras financeiras emitidas pelo Banco Master.
O volume total dessas aplicações chega a aproximadamente R$ 1,867 bilhão.
Em alguns municípios, gestores já reconheceram contabilmente a possibilidade de perdas significativas ou até mesmo integrais dos investimentos realizados.
O caso passou a gerar disputas judiciais envolvendo beneficiários e administradores dos fundos, embora decisões iniciais ainda não tenham determinado bloqueios patrimoniais ou responsabilizações.
O episódio reacende um debate antigo, mas sempre atual no sistema financeiro.
Em regra, retornos mais elevados costumam carregar riscos maiores.
Enquanto diversas instituições buscavam posições mais conservadoras diante do cenário econômico dos últimos anos, o Banco Master expandia sua estratégia de captação oferecendo remunerações acima da média do mercado.
A proposta atraiu investidores privados, fundos e instituições públicas.
Agora, com a liquidação decretada, o dinheiro público volta ao centro da discussão.
A engrenagem começa a aparecer justamente quando surgem questionamentos sobre o equilíbrio entre rentabilidade e segurança na gestão de recursos de instituições estatais.
Embora o valor de R$ 39 milhões não comprometa a operação do Banco da Amazônia, o episódio possui relevância institucional.
Trata-se de recursos administrados por uma instituição financeira pública que exerce papel estratégico no financiamento do desenvolvimento regional da Amazônia.
Por isso, cresce a expectativa sobre a transparência dos critérios utilizados para aprovar investimentos dessa natureza e sobre as medidas adotadas para minimizar possíveis prejuízos.
Diante da repercussão, aumenta a pressão para que os mecanismos de governança, gestão de riscos e fiscalização interna sejam detalhados ao público.
O caso também deverá permanecer sob acompanhamento dos órgãos de controle do sistema financeiro nacional, especialmente em razão da participação de instituições públicas entre os investidores atingidos pela liquidação do Banco Master.
Em nota, o Banco da Amazônia informou que adotou todas as medidas administrativas e judiciais cabíveis para resguardar seus direitos creditórios e acompanha o processo de liquidação em conformidade com as normas do Sistema Financeiro Nacional.
A instituição não informou se realizou provisões contábeis para eventual perda dos valores investidos.
O mercado financeiro ensina uma lição conhecida: rentabilidade elevada raramente vem desacompanhada de risco. Quando o assunto envolve recursos administrados por instituições públicas, porém, a discussão deixa de ser apenas financeira. Ela passa a ser uma questão de transparência, responsabilidade e prestação de contas à sociedade.
