Pará

Fim da lista tríplice muda jogo na Ufra

Primeira eleição universitária do Pará sob as novas regras federais marca mudança histórica na escolha dos dirigentes. Após anos de controvérsias, disputas judiciais e questionamentos sobre autonomia universitária, comunidade acadêmica volta a ter a palavra final.

A eleição para a Reitoria da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), marcada para o próximo dia 18, promete entrar para a história do ensino superior paraense. Não apenas pela escolha da gestão que comandará a instituição entre 2026 e 2030, mas porque será a primeira eleição universitária realizada no Estado sob as novas regras federais que esvaziaram o papel da chamada lista tríplice.

Na prática, a mudança representa o fim de um mecanismo que, durante décadas, permitiu que decisões tomadas dentro das universidades fossem alteradas nos gabinetes de Brasília.

Agora, a vontade expressa pela comunidade acadêmica ganha protagonismo e passa a ter peso decisivo na definição dos dirigentes das instituições federais.

Durante anos, mesmo após a realização das consultas internas, o resultado das eleições universitárias não era necessariamente o resultado final.

Pela legislação anterior, as universidades encaminhavam ao presidente da República uma lista tríplice com os três nomes mais votados ou indicados pelos colegiados.

Cabia ao chefe do Executivo escolher qualquer um dos integrantes dessa lista.

Foi justamente esse mecanismo que colocou a Ufra no centro de um dos debates mais intensos sobre autonomia universitária no país.

Em 2021, a professora Herdjania Veras de Lima foi nomeada reitora mesmo sem ter sido a candidata mais votada na consulta realizada junto à comunidade acadêmica.

Naquela disputa, a professora Janae Gonçalves recebeu 2.211 votos, enquanto Herdjania obteve 1.580.

A decisão do então presidente Jair Bolsonaro provocou forte reação de entidades ligadas ao ensino superior e abriu um debate nacional sobre os limites da interferência política nas universidades federais.

Cinco anos depois, o contexto institucional é completamente diferente.

A legislação sancionada pelo presidente Lula há dois meses eliminou a margem para nomeações divergentes da vontade expressa nas urnas.

A nova norma fortalece a autonomia universitária e assegura que o resultado da consulta acadêmica seja respeitado no processo de escolha dos dirigentes.

O caso acende um alerta porque encerra uma das principais fontes de conflito entre governos federais e universidades nas últimas décadas.

Nos bastidores do meio acadêmico, a mudança é vista por muitos como uma das alterações mais significativas na governança das instituições federais desde a redemocratização.

A eleição deste ano também simboliza o encerramento de um período conturbado dentro da universidade.

O processo eleitoral previsto para 2025 acabou suspenso por decisão da Justiça Federal após questionamentos envolvendo a composição do Conselho Universitário (Consun) e o cumprimento de determinações judiciais relacionadas ao pleito.

Com a paralisação, a instituição passou a ser administrada por uma reitora pro tempore nomeada pelo governo federal.

Coube justamente à professora Janae Gonçalves conduzir a reorganização administrativa, recompor colegiados e preparar a retomada do processo eleitoral.

Após a regularização das pendências apontadas pela Justiça, a eleição foi remarcada para este mês.

A corrida pela Reitoria reúne as mesmas candidatas que participaram do processo interrompido anteriormente.

A Chapa 1 é liderada por Eldilene da Silva Barbosa, tendo Raimundo Nelson Souza da Silva como candidato a vice-reitor.

A Chapa 2 apresenta Gracialda Costa Ferreira para reitora e Raimundo Lima da Silva para vice-reitor.

Já a Chapa 3 é encabeçada pela atual reitora Herdjania Veras de Lima, que busca a reeleição ao lado de Rosana do Nascimento Luz.

A votação será realizada de forma eletrônica, utilizando o sistema VotaNet, disponibilizado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Pará.

Professores, técnicos administrativos e estudantes participarão da escolha em modelo paritário.

Cada segmento terá peso equivalente, representando um terço do resultado final.

O formato busca equilibrar interesses e garantir participação ampla dos diferentes setores da universidade.

Independentemente de quem saia vencedora, a principal novidade está justamente no fato de que o resultado não dependerá mais de decisões políticas externas à instituição.

O significado da eleição ultrapassa os limites da própria Ufra.

A mudança ocorre em um momento em que universidades federais voltam a discutir temas relacionados à autonomia institucional, democracia interna e participação da comunidade acadêmica.

A eleição também se transforma em referência para outras instituições federais do Pará e da Amazônia que passarão a adotar as novas regras nos próximos processos sucessórios.

Depois de anos marcados por judicializações, disputas administrativas e questionamentos políticos, cresce a expectativa para que o novo processo eleitoral transcorra com tranquilidade e legitimidade.

A comunidade acadêmica espera que o resultado represente não apenas a escolha de uma nova gestão, mas também o encerramento de um ciclo de instabilidade institucional.

Os defensores da nova legislação argumentam que a mudança fortalece a autonomia universitária e garante que a vontade expressa pela comunidade acadêmica seja efetivamente respeitada.

Já os debates sobre o antigo modelo da lista tríplice envolveram, ao longo dos anos, diferentes interpretações jurídicas e políticas acerca das prerrogativas do Poder Executivo na nomeação de dirigentes universitários.

Mais do que uma eleição, a votação da Ufra representa um teste para um novo modelo de governança universitária. Pela primeira vez em muitos anos, estudantes, técnicos e professores irão às urnas sabendo que a decisão tomada dentro da universidade não precisará mais passar pelo filtro da conveniência política em Brasília. E, para muitos, é justamente aí que começa a verdadeira autonomia universitária.

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