Polícia prende investigada em shopping de Belém; aparelho que deveria atender pacientes de Trairão foi encontrado em Icoaraci, na capital
Um aparelho de ultrassonografia destinado à rede municipal de saúde de Trairão, no sudoeste do Pará, desapareceu do caminho oficial e reapareceu em uma clínica particular em Icoaraci, distrito de Belém, a mais de mil quilômetros de distância do município que deveria receber o equipamento. O caso levou a Polícia Civil a prender, na sexta-feira, 17, uma mulher investigada por fraude e desvio do bem público durante a operação Madame Curie.
A prisão ocorreu dentro de um shopping da capital paraense. Segundo a Polícia Civil, a abordagem foi discreta. A investigada não ofereceu resistência e, por isso, não foi necessário o uso de algemas.
O que está no centro da investigação é grave: um equipamento público de saúde, comprado ou destinado para atender pacientes do SUS em uma cidade do interior, teria sido retirado da rota institucional e direcionado para uso privado.
De acordo com a Polícia Civil, o aparelho saiu da Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará, a Sespa, mas nunca chegou ao destino final: o município de Trairão. Em vez disso, foi localizado em uma clínica particular em Icoaraci. Para os investigadores, o equipamento teria sido negociado com terceiros e usado fora da rede pública.
A operação apura um suposto esquema de fraude, desvio e apropriação indevida do aparelho. A investigação aponta ainda uma possível cadeia de intermediação na circulação irregular do ultrassom, com indícios de obtenção de vantagem ilícita por meio de empresas registradas em nome de “laranjas”.
Na prática, segundo a linha investigativa da polícia, o equipamento teria deixado de servir à população de uma cidade do interior para abastecer interesses privados na capital.
O caso expõe uma engrenagem conhecida no serviço público: bens que deveriam chegar à ponta, onde a população espera atendimento, somem no caminho, passam por intermediários e reaparecem longe do destino oficial. Quando isso acontece na saúde, o prejuízo não é apenas contábil. É social. Cada aparelho desviado pode significar exames represados, diagnósticos atrasados e pacientes obrigados a viajar ou esperar meses por atendimento.
A Sespa informou, em nota, que a pessoa investigada não integra o quadro de servidores da Secretaria. A pasta afirmou ainda que, ao ser notificada de que o equipamento não havia sido entregue ao município de destino, adotou imediatamente as medidas cabíveis e solicitou a apuração do caso. Disse também que acompanha o andamento das investigações.
O aparelho de ultrassonografia foi apreendido pela Polícia Civil e restituído ao controle estatal após ser encontrado na clínica particular.
A investigada deve responder por peculato-desvio, crime previsto para casos em que há desvio de bem público em razão de função pública ou participação no esquema. A Polícia Civil afirma que as investigações continuam para identificar outros possíveis envolvidos, mapear a cadeia de intermediação e aprofundar a responsabilização penal.
Até o momento, não há informação pública sobre manifestação da defesa da investigada ou dos responsáveis pela clínica onde o aparelho foi localizado. O caso segue sob apuração.
