Denúncia Pará

Seduc entrega menos da metade dos computadores prometidos e atraso no “Conecta Educação” acende alerta na rede estadual

Programa anunciado como vitrine tecnológica de mais de R$ 64 milhões enfrenta cobranças de professores, relatos de falhas na distribuição e dúvidas sobre transparência na entrega dos chromebooks no Pará

Anunciado com forte discurso de modernização da educação pública, o programa “Conecta Educação”, do governo do Pará, entrou no centro de uma nova onda de questionamentos após professores denunciarem atrasos, falhas de distribuição e ausência dos equipamentos prometidos nas escolas estaduais.

O que foi apresentado em 2025 como um salto tecnológico para a rede estadual começa agora a expor um cenário de insatisfação, cobranças e descompasso entre propaganda oficial e realidade enfrentada por educadores no interior e na capital.

Segundo informações divulgadas pelo Sistema Modular de Ensino (Some), apenas cerca de 17 mil chromebooks teriam sido entregues até agora, apesar da promessa inicial de 36 mil equipamentos. O investimento anunciado ultrapassa R$ 64 milhões.

Promessa de inclusão digital vira alvo de questionamentos

O programa previa transformar escolas estaduais em ambientes digitais com carrinhos contendo 36 chromebooks por unidade escolar. A proposta foi apresentada como símbolo da chamada “modernização” da educação paraense.

Mas nos bastidores da rede estadual, a situação descrita por professores está longe da vitrine oficial.

Educadores relatam que os equipamentos anunciados simplesmente não chegaram às escolas ou chegaram em quantidade considerada insuficiente. Em municípios do interior, as reclamações se acumulam.

Em Igarapé-Miri, professores afirmam que apenas 10 unidades teriam sido entregues para um universo de 33 docentes. Já em Abaetetuba, segundo relatos apresentados à coluna, profissionais chegaram a ser convocados para uma cerimônia oficial de entrega, mas os computadores não apareceram.

A movimentação levanta dúvidas sobre os critérios adotados na distribuição, a logística utilizada e o real alcance da política pública anunciada com forte exposição institucional.

Falta de respostas aumenta pressão

O caso acende um alerta justamente porque a promessa de inclusão digital atingia regiões historicamente marcadas por dificuldade de acesso a recursos tecnológicos e pedagógicos.

Segundo relatos de professores, nem mesmo Diretorias Regionais de Educação conseguem apresentar respostas consideradas claras sobre cronograma, quantidade entregue ou critérios de contemplação.

Nos bastidores, a cobrança é direta:

Onde estão os chromebooks prometidos?
Quem recebeu?
Quantas escolas foram efetivamente contempladas?
Qual o cronograma real de entrega?

O silêncio e a falta de informações detalhadas aumentam a pressão sobre a gestão estadual.

A engrenagem começa a aparecer justamente quando professores apontam que o discurso institucional segue avançando mais rápido do que os equipamentos nas salas de aula.

Disputa interna amplia tensão no Some

Paralelamente à crise dos computadores, outra tensão cresce dentro do Sistema Modular de Ensino.

Segundo informações relatadas por professores, a retomada do ensino fundamental pelos municípios — após fiscalização do Ministério Público — deve concentrar o Some no ensino médio, reduzindo turmas e ampliando a disputa por lotações.

Em Abaetetuba, docentes denunciam uma suposta articulação para flexibilização de regras de lotação previstas no Regime Jurídico Único, com o objetivo de favorecer profissionais locais com maior tempo de atuação na região.

Segundo os relatos, haveria pressão política envolvendo interlocução com o secretário de Educação, Ricardo Sefer, por meio de uma deputada estadual não identificada na denúncia apresentada.

Até o momento, não há informação oficial confirmando alteração nas regras.

Ainda assim, a movimentação já gera apreensão entre professores de outras regiões, que temem remoções forçadas e transferências para localidades distantes.

Versão oficial da Seduc

A Secretaria de Estado de Educação do Pará afirma que o processo de distribuição segue em andamento e sustenta que todas as 975 escolas estaduais já possuem acesso à internet via fibra óptica ou satélite.

O órgão informa ainda que a entrega dos equipamentos ocorre gradualmente, conforme consolidação da conectividade nas unidades escolares.

A secretaria também destaca parceria com o Google for Education e cita programas complementares voltados à conectividade da rede estadual.

A promessa oficial continua sendo a universalização do acesso aos chromebooks em toda a rede pública estadual.

Impacto direto nas escolas

Enquanto números seguem sendo apresentados oficialmente, professores relatam uma realidade diferente dentro das salas de aula.

Em regiões onde faltam recursos pedagógicos básicos, a ausência dos equipamentos aprofunda desigualdades educacionais e amplia a sensação de abandono relatada por profissionais da rede.

O dinheiro público volta ao centro da polêmica porque a população começa a cobrar não apenas anúncios, mas comprovação efetiva da entrega, funcionamento e uso dos equipamentos comprados com recursos estaduais.

Cobrança por fiscalização

Diante das denúncias e da diferença entre o volume prometido e o efetivamente entregue, cresce a pressão para que órgãos de controle acompanhem a execução do programa, especialmente em relação à distribuição dos equipamentos e à transparência dos dados apresentados.

O caso também reforça cobranças por fiscalização permanente sobre contratos, logística de entrega e critérios adotados na implementação das políticas públicas de tecnologia educacional.

O outro lado

A Secretaria de Estado de Educação do Pará informou que a distribuição dos chromebooks ocorre de maneira gradual, conforme avanço da conectividade nas escolas estaduais, e afirmou que todas as 975 unidades já possuem acesso à internet via fibra óptica ou satélite.

A pasta também destacou programas complementares de conectividade e capacitação docente em parceria com o Google for Education.

Por fim

O “Conecta Educação” nasceu como símbolo de modernização, mas agora enfrenta o teste que toda política pública precisa superar: sair da propaganda e chegar, de fato, à ponta. Porque entre o anúncio milionário e a sala de aula ainda existe uma distância que professores dizem continuar vendo todos os dias.

Back To Top