A decisão do Ministério da Saúde de manter fora do SUS a vacina contra meningite B para crianças menores de 1 ano reacendeu um debate sensível no país: quem pode pagar pela prevenção e quem fica de fora.
A medida, baseada em análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, a Conitec, considerou critérios científicos, técnicos e econômicos. No entanto, a decisão levanta questionamentos sobre acesso, desigualdade e proteção na primeira infância.
Vacina contra meningite B continua fora da rede pública
Com a decisão, a vacina contra o sorogrupo B permanece fora do calendário público infantil.
Atualmente, o imunizante está disponível apenas na rede privada. O custo por dose varia, em média, entre R$ 600 e R$ 750, podendo ultrapassar R$ 2 mil no esquema completo.
Na prática, famílias com maior poder aquisitivo conseguem acessar a proteção, enquanto outras dependem exclusivamente da rede pública.
Custo elevado pesou na decisão do Ministério da Saúde
Segundo o Ministério da Saúde, a incorporação ampla da vacina contra meningite B teria impacto expressivo no orçamento público.
A estimativa é de que o custo pudesse ultrapassar R$ 5,5 bilhões em cinco anos, valor que representaria forte pressão sobre o Programa Nacional de Imunizações, responsável por mais de 30 vacinas.
Além do impacto financeiro, a análise também considerou incertezas sobre a duração da proteção e sobre o efeito da vacina na redução da circulação da bactéria.
Disponibilidade limitada também entrou na análise
Outro ponto considerado foi a disponibilidade do imunizante.
De acordo com a avaliação, o quantitativo atual atenderia apenas cerca de 15% da demanda nacional. Esse fator reforçou a preocupação sobre a viabilidade de uma incorporação imediata em larga escala.
Mesmo que a vacina fosse incluída no SUS, haveria dificuldade para atender toda a população-alvo no curto prazo.
Doença tem evolução rápida e alta letalidade
A meningite bacteriana é uma doença grave, de evolução rápida e com risco elevado de morte.
Em 2025, o Brasil registrou 2.357 casos de meningite bacteriana, com 454 mortes. Desse total, 138 casos foram atribuídos ao sorogrupo B, responsável por 21 óbitos.
Sem tratamento adequado, a doença pode ser fatal em uma parcela significativa dos casos. Mesmo entre os sobreviventes, há risco de sequelas graves, como surdez, danos neurológicos e amputações.
Crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis
A faixa etária de 0 a 4 anos está entre as mais afetadas pela meningite.
Por isso, a não incorporação da vacina contra meningite B para crianças menores de 1 ano gera preocupação entre famílias, especialistas e entidades da área da saúde.
O debate ganha força porque o público infantil seria um dos principais beneficiados por uma política de prevenção mais ampla.
Decisão pode ser revista futuramente
A Conitec indicou que a decisão não é definitiva.
A recomendação pode ser reavaliada caso surjam novas evidências científicas, mudanças no preço da vacina ou maior disponibilidade do imunizante no mercado.
O Ministério da Saúde sustenta que a decisão seguiu critérios técnicos e econômicos, considerando custo-efetividade, impacto orçamentário e evidências disponíveis.
Debate expõe desigualdade no acesso à prevenção
O caso revela um dilema recorrente na saúde pública: incorporar tecnologias de alto custo, mesmo com benefícios ainda em avaliação, ou preservar o equilíbrio orçamentário para manter a cobertura ampla de outras vacinas e serviços essenciais.
Enquanto parte da população consegue pagar pela vacina na rede privada, outra depende exclusivamente do SUS.
Entre números, orçamento e evidências, a decisão levanta uma pergunta difícil: quanto vale prevenir quando o custo é alto — e quem paga o preço enquanto a resposta não chega?
