Pará

Internato sob suspeita: alunos denunciam jornadas exaustivas e clima de medo em hospitais ligados à UEPA e UFPA

Uma rotina que deveria formar médicos estaria, segundo denúncias, adoecendo estudantes no Pará.

Alunos de medicina da Universidade do Estado do Pará (UEPA) e da Universidade Federal do Pará (UFPA) relatam jornadas exaustivas, ambiente de pressão e clima de medo durante o internato médico em hospitais de Belém.

As denúncias citam unidades como o Hospital Universitário João de Barros Barreto, o Hospital da Mulher e o Pronto-Socorro Municipal do Benguí.

Estudantes relatam jornadas de até 66 horas semanais

De acordo com os relatos e documentos apresentados pelos estudantes, internos de medicina estariam sendo submetidos a cargas entre 60 e 66 horas semanais, com atividades de segunda a domingo.

A jornada diária começaria antes das 7h e, em alguns casos, se estenderia até depois das 19h, chegando a 20h ou 21h.

Segundo os denunciantes, a rotina ultrapassaria o limite previsto para o internato médico, que deve observar carga horária compatível com a legislação e com as normas educacionais aplicáveis.

Denúncia aponta divergência entre plano pedagógico e prática

Outro ponto citado na denúncia é a diferença entre a carga horária prevista nos planos pedagógicos e a rotina efetivamente cumprida pelos alunos.

Enquanto o modelo acadêmico indicaria cerca de 296 horas em determinado período de internato, os relatos apontam que esse número poderia chegar a 360 horas no mesmo intervalo.

Para os estudantes, a diferença reforça a necessidade de apuração sobre o controle da jornada e a compatibilidade entre o que está previsto formalmente e o que estaria sendo exigido na prática.

Clima de medo dificulta contestação

Nos bastidores, os relatos indicam um ambiente marcado por hierarquia rígida, pressão e receio de retaliações acadêmicas.

Segundo os denunciantes, muitos estudantes evitariam questionar a carga horária ou as condições do internato por medo de prejuízo na avaliação, atraso na formação ou exposição diante de professores, preceptores e equipes hospitalares.

Esse clima, de acordo com os relatos, dificultaria a formalização de reclamações e a busca por soluções dentro das próprias instituições.

Alunos dizem atuar além do limite esperado

A denúncia também levanta suspeitas de que estudantes estariam assumindo atividades que, em tese, deveriam ser desempenhadas por profissionais já formados ou supervisionadas de forma mais direta.

Os relatos apontam ainda desgaste na relação entre internos e médicos residentes, com cobranças sobre tarefas administrativas e operacionais que, segundo os alunos, não teriam sido formalmente ensinadas.

O caso reacende o debate sobre os limites da atuação do estudante no internato e sobre a responsabilidade das instituições na supervisão das atividades práticas.

Caso foi levado a órgãos de controle

Segundo os denunciantes, o caso já foi encaminhado ao Ministério Público Federal, ao Ministério Público do Trabalho, à União Nacional dos Estudantes e às ouvidorias das universidades.

Apesar disso, os estudantes afirmam que ainda não houve resposta prática ou medida efetiva capaz de modificar a rotina denunciada.

Também teria havido tentativa de diálogo com responsáveis pelos planos pedagógicos, mas, conforme os relatos, as conversas não teriam avançado.

Impacto vai além do ambiente acadêmico

O impacto das denúncias ultrapassa o ambiente universitário.

A formação médica sob condições consideradas exaustivas pode afetar diretamente a qualidade do aprendizado, a saúde mental dos estudantes e a segurança do atendimento prestado à população.

Além disso, o caso levanta questionamentos sobre a gestão de hospitais públicos e universitários que recebem internos em atividades assistenciais.

Autoridades são cobradas por apuração

Diante da gravidade dos relatos, cresce a cobrança por apuração rigorosa dos fatos.

Órgãos como o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Trabalho podem verificar se há descumprimento de normas educacionais, sanitárias, administrativas ou trabalhistas relacionadas ao internato.

As universidades e as direções hospitalares também são chamadas a esclarecer os critérios adotados, a carga horária efetivamente aplicada e a forma de supervisão dos estudantes.

Universidades ainda devem esclarecer os pontos levantados

Até o momento, segundo o texto da denúncia, não foram apresentadas manifestações públicas detalhadas das universidades ou dos profissionais citados sobre os pontos específicos levantados pelos alunos.

A apuração deve considerar documentos, escalas, planos pedagógicos, relatos de estudantes, registros de frequência e normas aplicáveis ao internato médico.

Formar médicos exige rigor, disciplina e responsabilidade. Mas, quando a formação passa a conviver com exaustão, silêncio e medo, a pergunta deixa de ser apenas pedagógica e passa a ser institucional: quem está fiscalizando essa rotina?

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