Operação Fratria investiga contratos hospitalares que movimentaram mais de R$ 642 milhões; prejuízo estimado pode chegar a pelo menos R$ 48 milhões. Organização social ligada ao entorno político da família Sefer administra quatro hospitais regionais no estado.
A Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram, nesta quinta-feira, 23 de abril de 2026, a Operação Fratria, para investigar suspeitas de fraude em contratos de hospitais mantidos pelo Estado no Pará. No centro da apuração está uma organização social de saúde que recebeu mais de R$ 642 milhões em verbas governamentais e é suspeita de causar prejuízo de pelo menos R$ 48 milhões ao erário.
Um dos alvos da operação foi a sede da Associação de Saúde, Esporte, Lazer e Cultura — ASELC, organização social que administra hospitais regionais no estado e que teria ligações com a família Sefer.
A operação não é pequena. Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão, expedidos pela Justiça Federal, em endereços residenciais e comerciais em Belém e Ananindeua. Não houve mandados de prisão. O processo tramita sob sigilo, e os órgãos federais não divulgaram oficialmente os nomes dos investigados.
Mas a informação que circula nos bastidores é explosiva: policiais federais estiveram na sede da ASELC, no Edifício Metropolitan Tower, na Rua dos Mundurucus, nº 3100, no bairro da Cremação, em Belém.
A investigação nasceu no MPF e contou com análise técnica da CGU. Segundo os órgãos federais, foram encontrados indícios de fraude processual no processo de qualificação da organização social, além de suspeitas de irregularidades na execução contratual.
Em outras palavras: a apuração mira não apenas como o dinheiro foi gasto, mas também como a entidade conseguiu se habilitar para administrar hospitais públicos.
O caminho do dinheiro público
A ASELC administra atualmente quatro hospitais regionais no Pará. Segundo informações atribuídas à própria organização, a entidade gerencia o Hospital Regional de Rio Maria, o Hospital Geral de Parauapebas, o Hospital Regional Público do Araguaia, em Redenção, e o Hospital Regional Público de Castanhal.
Esses contratos colocam a organização social no coração da política pública de saúde do estado. Não se trata de uma entidade periférica. A ASELC está à frente de hospitais estratégicos, em municípios relevantes, operando serviços que deveriam atender diretamente a população que depende do SUS.
Segundo PF, MPF e CGU, os contratos investigados movimentaram mais de R$ 642 milhões. A estimativa inicial de prejuízo é de pelo menos R$ 48 milhões.
O número, por si só, já seria suficiente para exigir respostas públicas imediatas.
O elo político: gabinete de Gustavo Sefer e presidência da ASELC
Um dos pontos mais sensíveis da história está na relação entre a ASELC e o entorno político da família Sefer.
O diretor-presidente da ASELC, Clebson Carlos Gomes Vasconcelos, já foi lotado no gabinete do deputado estadual Gustavo Sefer, filho do ex-deputado Luiz Sefer. Clebson esteve no gabinete até 2019, mesmo período em que começou a ocupar cargo na organização social. Antes disso, também teria trabalhado no gabinete de Gustavo Sefer durante o mandato de vereador em Belém, até 2017.
A coincidência temporal é politicamente grave. De um lado, um assessor vinculado ao grupo político. Do outro, uma organização social que passa a administrar contratos milionários na saúde pública. No meio, uma operação federal que apura fraude processual, improbidade e dano ao erário.
A pergunta que precisa ser respondida é simples: a ASELC chegou aos hospitais públicos por capacidade técnica ou por influência política?
Essa dúvida ganha ainda mais força quando se observa outro elo, agora diretamente ligado ao entorno profissional de Ricardo Sefer.
O elo direto com Ricardo Sefer
A relação entre a ASELC e o núcleo político ligado a Ricardo Sefer não se limita a rumores de bastidor. Ela passa também por uma conexão profissional direta: Rodrigo Lobato, apontado como sócio de Ricardo Sefer, atuou como advogado das organizações sociais e as representou em licitações e procedimentos públicos que deram origem a contratos milionários na saúde do Pará.
Esse dado muda o peso político da história. A suspeita deixa de girar apenas em torno de afinidades familiares ou relações indiretas e passa a envolver uma ponte concreta entre o grupo político e a estrutura jurídica usada pelas OSs para disputar e assumir contratos públicos.
Em outras palavras: enquanto a ASELC avançava sobre a gestão de hospitais regionais e contratos de centenas de milhões de reais, um advogado ligado profissionalmente a Ricardo Sefer teria atuado na linha de frente da representação dessas organizações sociais perante o poder público.
A pergunta, agora, é ainda mais objetiva: Ricardo Sefer era apenas um personagem citado em denúncias anteriores ou seu entorno profissional teve papel direto na engrenagem que abriu caminho para esses contratos?
O escritório da Cremação e o burburinho nos corredores do poder
Nos bastidores, fontes políticas ouvidas reservadamente afirmam que o endereço alvo da Polícia Federal não seria apenas uma sede administrativa da organização social. Segundo esses relatos, o local também teria sido usado pelo atual secretário estadual de Educação, Ricardo Sefer, para reuniões fora da estrutura formal da Seduc.
O que já era uma investigação sobre contratos hospitalares passa a tocar em uma pergunta ainda mais incômoda: qual era, de fato, o papel da família Sefer na engrenagem da ASELC?
Ricardo Sefer já havia sido citado em denúncia anterior relacionada à ASELC. Em 2021, o ex-procurador do Estado Afonso Carlos Paulo de Oliveira Júnior denunciou suposta ligação entre membros da família Sefer e organizações sociais de saúde.
Na época, Afonso Oliveira acusou Ricardo Sefer de ter relação com um suposto esquema envolvendo organizações sociais, incluindo a ASELC. A denúncia, por si só, não equivale a condenação. Mas agora, com PF, MPF e CGU nas ruas, o histórico ganha novo peso político.
O modus operandi investigado
Pelo que foi divulgado oficialmente, a Operação Fratria mira três frentes principais:
- Fraude no processo de qualificação da OSS
A CGU apontou indícios de irregularidades no processo que permitiu à organização social atuar na gestão hospitalar. - Suspeitas nos chamamentos públicos e contratos
A apuração envolve processos de qualificação, chamamentos públicos e contratos correlatos. - Irregularidades na execução contratual
A investigação também mira como os serviços foram executados e como os recursos públicos foram aplicados.
Na prática, a suspeita é de que o problema pode ter começado antes mesmo da gestão dos hospitais: na porta de entrada do sistema.
Se a qualificação da entidade foi viciada, todos os contratos posteriores ficam sob suspeita.
A família Sefer e o fantasma da impunidade
O nome Sefer carrega um histórico pesado no Pará. O ex-deputado Luiz Afonso Sefer foi acusado de estuprar uma criança que tinha 9 anos quando começou a trabalhar em sua casa. O caso se arrastou por anos, com condenações, recursos, anulações e novas decisões judiciais.
Esse histórico não prova envolvimento da família nas suspeitas investigadas agora pela Operação Fratria. Mas ajuda a explicar por que o caso provoca tanta indignação pública.
Para muita gente, o sobrenome Sefer virou símbolo de uma velha pergunta paraense: a Justiça vale para todos ou só para quem não tem poder?
O que se sabe até o momento?
Até aqui, o que existe oficialmente é uma investigação em curso, sob sigilo, conduzida por órgãos federais. Mas os elementos já públicos são graves: contratos de mais de R$ 642 milhões, suspeita de dano mínimo de R$ 48 milhões, indícios de fraude processual, nove mandados de busca e apreensão e uma organização social com vínculos políticos sensíveis no centro da saúde pública paraense.
A Operação Fratria ainda está no começo. Mas a pergunta que fica é inevitável:
quantos hospitais, quantos contratos e quantos pacientes foram entregues a uma engrenagem que agora a Polícia Federal trata como suspeita de fraude?
