Orçada em R$ 28 milhões, antiga Comus foi extinta com dívidas, contratos suspeitos e um dos piores desempenhos na história da Prefeitura de Belém
A Comunicação da Prefeitura de Belém sob o comando do ex-prefeito Edmilson Rodrigues (PSOL), entre 2021 e 2024, não apenas afundou financeiramente como também se consolidou como um desastre administrativo e político. Documentos obtidos com exclusividade revelam um rombo superior a R$ 18 milhões na antiga Coordenadoria Municipal de Comunicação Social (Comus), hoje extinta. Enquanto a verba orçada alcançava R$ 28 milhões, boa parte dos recursos sumiu sem explicação, contratos foram fechados em condições suspeitas e a comunicação oficial da gestão se mostrou incapaz até mesmo de responder com agilidade as demandas da imprensa.
Os números alarmantes e o modus operandi apontam para uma gestão marcada pela falta de transparência e amadorismo, que impactaram diretamente a imagem do ex-prefeito — e, possivelmente, influenciaram sua derrota eleitoral ao não conseguir nem avançar ao segundo turno em 2024. A crise vai além das cifras: a comunicação, peça-chave para qualquer governo, virou motivo de piada e crítica na capital paraense.

Segundo fontes internas e documentos exclusivos obtidos, a Comus, que até 2015 contava com orçamento anual de R$ 26 milhões, recebeu R$ 28 milhões durante a gestão de Edmilson. No entanto, a prestação de contas aponta um déficit de R$ 18 milhões, sem qualquer justificativa clara para a aplicação dos recursos.
“Encontramos recibos pagos a prestadores sem empresa constituída, como no caso de contratos para serviços com bike-som”, denuncia Mauro Neto, jornalista e atual secretário executivo de imprensa da prefeitura. “Verba havia, foi gasta, só não se sabe em quê. A antiga gestão terá que explicar”, completa.
Além da falta de transparência, a comunicação da prefeitura enfrentou problemas operacionais graves. Sob a direção inicial da jornalista Keyla Negrão, conhecida por sua dificuldade em dialogar com a imprensa e até com sua própria equipe, a coordenação perdeu espaço e efetividade. A sucessora Marta Brasil tentou recuperar a situação, mas o estrago já era irreversível.
O colapso da comunicação oficial não apenas prejudicou a imagem do governo, mas comprometeu a transparência e o direito à informação da população. “Quem não se comunica, se trumbica”, dizia o icônico Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Em Belém, essa máxima foi ignorada, resultando em desinformação e descontentamento popular.
Do ponto de vista legal, o rombo de R$ 18 milhões e contratos irregulares podem abrir caminho para investigações do Ministério Público e auditorias rigorosas. Já a dívida de 13 meses acumulada com a empresa de manutenção da Agência Belém, que chega a cerca de R$ 400 mil, resultou em paralisação do site oficial em agosto de 2024, deixando a prefeitura praticamente sem canais oficiais de comunicação digital por quase uma semana.
Em discurso, Mauro Neto, que assumiu a gerência de jornalismo da prefeitura em 2025, qualifica o cenário deixado pela gestão anterior como “terra arrasada”. A antiga Comus foi extinta e transformada na Secretaria de Comunicação, com nova equipe liderada pela jornalista Ariela Motizuki, ligada diretamente ao atual prefeito Igor Normando.
O orçamento para 2025 sofreu corte drástico, reduzindo-se a R$ 11 milhões, menos da metade do montante destinado anteriormente, o que torna a tarefa de reconstruir a comunicação pública ainda mais desafiadora, especialmente em um ano de eventos importantes, como a COP30.
Além do rombo financeiro, a Agência Belém, responsável pela divulgação oficial, esteve praticamente sem manutenção durante toda a gestão passada. Os computadores com Windows 7, mobiliário antigo e atraso nos pagamentos evidenciam negligência. O site da Agência passou por uma remodelação radical, que levou ao desaparecimento temporário de matérias de gestões anteriores — fato justificado oficialmente como uma ação para melhorar o SEO e atender exigências judiciais.
Outro aspecto preocupante envolve a terceirização de serviços de marketing. O prédio alugado que abrigava a comunicação da prefeitura durante a gestão de Edmilson, onde funcionava uma antiga agência de publicidade (DC3), tinha como sócio o publicitário Glauco Lima, que trabalhou na campanha do ex-prefeito em 2020 e prestou assessoria quase toda a gestão. Apesar das suspeitas e denúncias, a relação entre o governo e esses contratos permanece nebulosa.
Procurada para comentar as denúncias, a assessoria do ex-prefeito Edmilson Rodrigues não respondeu até o fechamento desta reportagem. A atual gestão afirma que o Ministério Público já foi acionado e que abrirá sindicância interna para apurar irregularidades. Enquanto isso, a população aguarda respostas claras e medidas efetivas para evitar que a comunicação oficial da Prefeitura de Belém volte a ser um ponto negro na administração pública, comprometendo o direito à informação e o controle social sobre o uso do dinheiro público.
