Após gestão conturbada no Hospital das Clínicas, secretária adjunta volta ao centro do poder com postura que desperta desconforto entre entidades conveniadas à saúde estadual.
A médica Heloisa Guimarães, ex-diretora do Hospital das Clínicas Gaspar Viana (HCGV), retornou recentemente ao alto escalão da Secretaria de Estado de Saúde do Pará (SESPA), agora como secretária adjunta. A nomeação, embora recebida com discrição oficial, vem sendo acompanhada de perto — e com certa apreensão — pelos bastidores da saúde pública.
Fontes ligadas a Organizações Sociais (OSs) que atuam na gestão hospitalar do Estado relatam que, desde sua chegada, Heloisa tem adotado um tom inusitadamente incisivo nas tratativas com representantes das instituições. A fala é acelerada, a abordagem direta — por vezes, ríspida — e as exigências extrapolam o que é habitual em relações institucionais.
“Ela tem pressa, como se houvesse algo mais urgente em jogo”, comentou à reportagem um gestor de OS que participou de reunião recente com a adjunta. Outro dirigente foi mais categórico: “A postura dela causa desconforto. É como se estivesse construindo uma relação paralela, fora dos canais técnicos”.
Documentos obtidos com exclusividade indicam encontros extraoficiais entre Heloisa e diretores de OSs fora das agendas públicas da SESPA. Em ao menos duas ocasiões, os encontros ocorreram sem a presença de técnicos ou representantes das áreas jurídicas, o que contraria os protocolos esperados em reuniões de acompanhamento contratual.
A situação chama atenção não apenas pela forma, mas pelo histórico. Durante sua passagem pelo HCGV, a médica acumulou críticas por centralização de decisões, embates com equipes técnicas e alterações administrativas sem ampla justificativa. À época, sua gestão foi descrita por colegas como “instável” e “personalista”.
Agora, de volta ao coração da SESPA, com acesso direto a contratos bilionários e estruturas sensíveis da saúde estadual, seu estilo de atuação reacende dúvidas. O que exatamente busca a Dra. Heloisa? É a pergunta que circula, com frequência crescente, entre interlocutores da rede hospitalar paraense.
A atuação de Organizações Sociais na saúde pública do Pará envolve cifras vultosas e já foi alvo de diversas investigações por órgãos de controle. Qualquer desvio de conduta ou pressão atípica nessa relação pode comprometer não apenas contratos, mas o próprio atendimento à população.
O Ministério Público do Estado, segundo fonte próxima à Promotoria da Saúde, acompanha com atenção os desdobramentos recentes. “Há movimentações incomuns. Estamos observando, por enquanto”, disse a fonte, em reserva.
Entre silêncios e sussurros de bastidores, cresce a sensação de que há algo fora do lugar. E, quando o incômodo se instala em instituições com tanto poder nas mãos, o tempo — e os fatos — tendem a trazer à tona o que hoje ainda se sussurra apenas nos corredores.
