Contrato milionário com organização social paulista não impediu acidente grave; falta de empresa contratada para manutenção predial no Estado agrava riscos em unidades públicas.
Na madrugada deste domingo (6), o desabamento de um elevador com cerca de dez profissionais de saúde no Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (HOIOL), em Belém, expôs de forma trágica os efeitos da terceirização da saúde e da paralisia estrutural do Estado na manutenção de seus próprios prédios.
O hospital, localizado no bairro de São Brás, é referência no tratamento do câncer infanto-juvenil. Desde 2022, está sob responsabilidade do Instituto Diretrizes, organização social privada de São Paulo contratada para gerir a unidade. O contrato firmado ultrapassa R$ 69 milhões.
Testemunhas relatam que o elevador já apresentava falhas há semanas. Mesmo após alertas internos, nenhuma medida efetiva foi tomada pela direção do hospital. A queda do equipamento, com dez pessoas em seu interior, foi o ponto de ruptura de uma tragédia anunciada. Até o momento, não há informações oficiais sobre o estado de saúde das vítimas.
Gestão terceirizada e falhas recorrentes
O Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem do Pará (SATE) vinha denunciando “descasos e péssimas condições de trabalho no hospital”. Em documento enviado ao Ministério Público do Trabalho (MPT), o sindicato alertava para os riscos estruturais e a sobrecarga de funcionários. Uma audiência está agendada para o próximo dia 16, justamente para tratar desses temas.
Fontes internas afirmam que há uma cultura de omissão por parte da gestão terceirizada. “O Instituto Diretrizes atua com foco em metas e corte de custos. A estrutura física e o bem-estar da equipe não são prioridade”, denuncia uma técnica de enfermagem, sob anonimato.
Manutenção paralisada em todo o Estado
A tragédia também evidencia um problema ainda mais amplo: segundo apurado pela reportagem, o Estado do Pará não possui, neste momento, nenhum contrato vigente com empresas de manutenção predial. Ou seja, todos os prédios públicos — escolas, hospitais, delegacias, secretarias — estão sem cobertura técnica para reparos e conservação.
A ausência de uma licitação para esse serviço essencial representa uma falha grave da máquina pública. A morosidade do processo administrativo e a falta de prioridade para o tema vêm empurrando os problemas estruturais com a barriga, até que um acidente ocorra.
“É como esperar o teto cair para lembrar que ele precisava de conserto”, afirma uma fonte ligada à Secretaria de Administração, que também pediu para não ser identificada. “Esse tipo de situação não é exclusividade do HOIOL. Qualquer prédio público hoje no Pará está vulnerável.”
Não é acidente. É resultado.
O que aconteceu no HOIOL não pode ser tratado como um simples “acidente”. É o produto direto de um modelo de gestão terceirizada onde o lucro prevalece sobre a segurança — aliado à inércia do Estado em garantir o mínimo: a manutenção do próprio patrimônio público. Neste momento, o Pará precisa responder: quantas tragédias mais serão necessárias para que a responsabilidade com a vida e com os trabalhadores seja finalmente assumida?
