Decisão da Justiça Federal expõe esquema de R$ 198 milhões que atinge a Assembleia Legislativa do Pará e envolve empresários, servidores e órgãos estaduais.
Documentos obtidos com exclusividade pela reportagem revelam que a Assembleia Legislativa do Pará (ALEPA) é peça central em um sofisticado esquema de corrupção. Segundo a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União, contratos de manutenção predial superfaturados alimentaram uma rede de propinas que, em alguns casos, eram pagas dentro da própria sede da Casa Legislativa.
O modus operandi
A investigação da Polícia Federal mostra que empresas de fachada, como Líder Engenharia, Fortes Comércio & Serviços e Max Empreendimentos, venceram licitações direcionadas e firmaram contratos milionários com órgãos do Estado, entre eles a ALEPA. O valor inicial de alguns contratos mais que dobrou após aditivos ilegais. No total, entre 2018 e 2025, essas empresas receberam R$ 198 milhões, sendo cerca de R$ 75 milhões apenas da Assembleia Legislativa.
Parte desse dinheiro retornava em forma de propina. Para disfarçar, as empresas inflavam contratos, realizavam saques em espécie e entregavam malas de dinheiro diretamente a servidores públicos. Em 2025, a PF flagrou pagamentos realizados dentro da agência bancária localizada nas dependências da ALEPA, onde apenas nos três primeiros meses de funcionamento foram sacados R$ 14 milhões em espécie, montante que teria sido direcionado a servidores ligados à presidência da Casa.
As provas
Trechos da decisão da 4ª Vara Federal Criminal do Pará confirmam que os contratos da ALEPA foram usados para alimentar a engrenagem criminosa. O pregão eletrônico nº 01/2021, por exemplo, resultou em contrato de R$ 12,9 milhões que, após aditivos ilegais, saltou para R$ 23,6 milhões. A Controladoria-Geral da União apontou ausência de pesquisa de preços e incompatibilidade de objetos nos processos de “carona” de atas de registro de preços, o que favoreceu empresas ligadas ao esquema.
Além de relatórios financeiros, a PF produziu fotos e vídeos em ações controladas. Em uma delas, empresários foram flagrados retirando R$ 600 mil em espécie de uma agência do Banpará e, em seguida, entregando o dinheiro dentro da Polícia Científica do Pará. Em outra operação, o saque e a entrega ocorreram diretamente no estacionamento da ALEPA, com participação de servidores identificados.
Os beneficiários
O núcleo empresarial, formado por Jacélio Faria da Igreja (Líder Engenharia), Alex Jordano Cunha (Max Empreendimentos) e Alberto Furtado Pinheiro (Fortes Comércio & Serviços), operava em conluio com servidores estratégicos. Entre os citados pela PF estão Fabrício Buarque Corrêa e Sandro Rogério Matos, ambos da ALEPA, acusados de intermediar liberações orçamentárias e receber valores em espécie. A investigação aponta ainda que parte das propinas abastecia figuras ligadas ao gabinete da presidência.
Consequências políticas e legais
As denúncias levantam uma questão central: até que ponto a presidência da ALEPA, já criticada por centralizar decisões e enfraquecer o debate democrático, tornou-se também cúmplice e beneficiária de um esquema de corrupção sistêmico? A decisão judicial autoriza busca e apreensão, bloqueio patrimonial e prisão preventiva de investigados, configurando um dos maiores escândalos recentes da política paraense.
A reportagem procurou a presidência da ALEPA e os servidores citados, mas não houve resposta até o fechamento deste texto. Empresários ligados às empresas investigadas também permaneceram em silêncio diante da acusação. O Ministério Público Federal já acompanha o caso, e novos desdobramentos podem incluir denúncias formais por corrupção ativa e passiva, fraude a licitação, peculato e lavagem de dinheiro.
O que está em jogo agora não é apenas o futuro de contratos suspeitos, mas a credibilidade da própria Casa Legislativa — uma instituição que deveria zelar pelo interesse público, mas que, segundo os documentos, pode ter se transformado em epicentro de um esquema bilionário de corrupção.
